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Do estado máximo ao estado mínimo, a trajetória de Oriovisto Guimarães na vida e na política

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Screenshot 3 - Do estado máximo ao estado mínimo, a trajetória de Oriovisto Guimarães na vida e na política

Oriovisto Guimarães no plenário do Senado. (Foto divulgação)

Por Reinaldo Bessa

De militante da Organização Revolucionária Marxista Política Operária, mais conhecida como Polop entre os combatentes do regime militar instalado em 1964, à condição de liberal e defensor do estado mínimo. Entre ambas as posições, decorreram mais de 50 anos. Paulista de Batatais, Oriovisto Guimarães veio ainda criança com a família para o interior do Paraná. Aos 17 já estava em Curitiba, onde deu aulas particulares de matemática. Foi um dos fundadores do curso pré-vestibular Positivo, em 1972, em pleno governo militar, que mais tarde se transformaria no Grupo Positivo, potência nas áreas de ensino e informática, entre outras. Foi o primeiro reitor da Universidade Positivo e, como tal, legou à cidade um de seus mais belos e modernos espaços culturais, o Teatro Positivo – Grande Auditório, inspirado no teatro grego de Epidauro. Só agora, aos 73 anos de idade, Oriovisto decidiu enveredar pela política – convites não lhe faltaram nesses anos todos. E logo na largada derrotou com folga um medalhão da política paranaense, o então senador e ex-governador Roberto Requião, até então favorito à reeleição. E ele garante que está imune à mosca azul. Pretende concluir o mandato e voltar para casa. A seguir, a entrevista exclusiva concedida pelo novo senador do Paraná no último dia 12 em seu escritório político no 20º andar do edifício Curitiba Trade Center.     

Que impressão o senhor teve ao colocar os pés no Senado e pensar: Agora eu faço parte disso aqui?

OG: A impressão é de muita responsabilidade, de muito trabalho pela frente. De ter que conhecer muitas pessoas, de ter que fazer relacionamentos porque sozinho no Senado você não faz nada. São 81 senadores. Se você não conhecer os demais senadores, não conversar com eles, não trocar ideias, não chegar a ideias comuns, você não vai conseguir realizar muita coisa. Eu nunca fui político. Estou me inteirando dessas coisas e, aos poucos, já vamos começar a fazer propostas, começar a ter grupos, enfim, somar forças com outras pessoas e começar a fazer as mudanças que eu acho que o Brasil tanto precisa. Ou ajudar a fazer essas mudanças, as quais não farei sozinho. Nem o Senado fará sozinho. Precisa entrar a Câmara dos Deputados no meio, precisa entrar o Poder Executivo no meio, às vezes vai precisar entrar até o Judiciário no meio. Então, essas transformações que a população quer exigem o concurso de muitas forças. Eu sou apenas um dos 81 senadores.

O senhor substitui o ex-senador e ex-governador Roberto Requião.Recebeu alguma manifestação de seus colegas quanto a isto? Favorável ou desfavorável?

OG: (Pensa um pouco) Não, não. Ninguém tocou no nome do Requião. Eu conheci vários senadores, muitos eu já conhecia. Mas as pessoas não ficam muito preocupadas com o passado lá no Senado. A preocupação é com o futuro. Eles trataram mais de me conhecer, de saber o que eu penso e eu em saber o que eles pensam, ver o que nós temos em comum.

O senhor foi eleito pelo Podemos, que era aliado do presidente Jair Bolsonaro, e aqui no estado o senhor apoiou o governador Ratinho Jr. No passado, na sua juventude, o senhor foi militante de esquerda. Como é que se deu essa conversão? Ela ocorreu ao longo dos anos?

OG: Deixa eu fazer uma correção. O Podemos nunca apoiou o Bolsonaro. O Podemos tinha um candidato a presidente da República que era o [senador] Alvaro Dias. Como ele não foi para o segundo turno, eu apoiei o Bolsonaro. Mas no primeiro turno eu estava com o Alvaro Dias.  Quanto às minhas ideias na época da juventude e as minhas ideias de hoje 50 longos anos nos separam, né? Então, aquele estudante de 17, 18 anos, que brigava contra a ditadura militar, já não existe. Isso é uma coisa do passado. Isso não faz mais sentido. Eu acho que o Napoleão Bonaparte hoje seria uma figura ridícula aqui ou na França. O tempo muda o contexto histórico, muda as necessidades da sociedade, o tempo mudas as pessoas e eu, graças a Deus, mudei muito nesse tempo. Me tornei um empresário, aprendi de fato como funciona a economia, como funciona a política e as ideias que eu tenho hoje não têm nada de esquerda. Muito pelo contrário. Eu sou um liberal, advogo o estado mínimo e acho que o Brasil precisa acabar com privilégios, acabar com diferenças. Acho que precisamos parar de acreditar que vai ter um santo milagroso que vai nos salvar e que nós temos que exercer a nossa cidadania e exigir que o Estado cumpra o papel para o qual ele foi feito, um estado mínimo que esteja realmente preocupado com educação, com saúde, com justiça, com segurança, que é o papel próprio do Estado.

Qual sua expectativa com o governo Bolsonaro, principalmente com este começo um tanto quanto conturbado, tanto pela questão da saúde dele quanto por essas denúncias envolvendo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, agora seu colega.

OG: Primeiro, eu acho que mais que o governo Bolsonaro nós temos um momento do Brasil que é maior que o Bolsonaro. A população brasileira disse não à velha política. Ela renovou não só o presidente da República como renovou grande parte do parlamento. E esses ventos de mudança estão aí claramente para quem quiser entender e mesmo os políticos que foram reeleitos acho que o foram com uma nova cabeça. Eles são velhos na política, mas não têm aquelas posições que o PT tinha, aquelas coisas estranhas de esquerda… eu sinto lá no Senado, e acho que na Câmara dos Deputados também, ventos novos, ventos de mudança, no sentido de acabar com corrupção. Por que o Bolsonaro convida um Sergio Moro para ser ministro da Justiça? Porque o Sergio Moro é a própria encarnação de tudo o que o nosso povo quer. Não quer mais estado patrimonialista, não quer mais político corrupto, não quer mais um estado inchado, não quer mais um estado mentiroso que cria 13 milhões de desempregados. Então é um novo tempo. O Bolsonaro foi a maneira do povo dar esse recado. E eu espero que ele cumpra esse papel. Ele tem o Sergio Moro, que é um grande ministro, tem o Paulo Guedes, que é um grande ministro, e tem outros ministros que eu acho que são bons também, mas se esses dois derem certo já vai ser um governo de sucesso. Quanto ao filho dele, eu não posso dizer nada a esse respeito. Ele está sendo ainda investigado, não foi sequer indiciado, muito menos julgado e eu te digo que não sei nada a respeito da vida dele e não vou prejulgar nem julgar com base em notícias que realmente não foram sequer analisadas por quem de direito, que é a Justiça. Aliás, a esse respeito o próprio Bolsonaro já disse: se ele estiver errado vai ter que pagar, né? Eu acho que foi uma frase lapidar. E isso não afeta o Bolsonaro. O problema é com ele [Flávio], não é com o Bolsonaro.

E não afeta a confiança dos que hoje apoiam o presidente, como é o seu caso?

OG: Não, em absoluto. Se ele tiver essa postura de que se o filho errou tem que pagar, para mim é mais uma razão para que eu confie nele. Significa que ele é um homem que tem princípios tão rígidos que mesmo com o filho ele aplica igual.

Qual será seu primeiro projeto no Senado?

OG: Nós tivemos uma reunião plenária, que foi a eleição do presidente e tivemos uma outra para a eleição da Mesa. Agora tem as comissões. Ainda não está definido em quais comissões eu vou participar. Eu tenho algumas ideias de projetos de lei, outras de proposta de emenda constitucional, mas ainda é muito cedo para falar nisso. Primeiro é preciso ver em que comissões vou estar, que apoios eu consigo trazer para essas ideias. No tempo oportuno eu vou me pronunciar. Não quero falar para não queimar as ideias porque às vezes você coloca uma ideia antes da hora e isso acaba atrapalhando essa ideia.

O senhor pretende apresentar algum projeto ligado à educação?

OG: Não tenho nenhum projeto ligado à educação. Nesse momento não há nenhum projeto ligado à educação. Eu acho que a educação no Brasil não é uma questão de legislação. Nós já temos legislação que chega. O problema da educação no Brasil é de administração. Tanto no governo federal, no Ministério, que precisa tomar medidas administrativas. Ele tem cobertura legal para tomá-las, como os estados também, onde existe cobertura legal suficiente para que façam uma revolução na educação com medidas administrativas. Eu acho que o brasileiro tem a mania de que toda vez que tem um problema ele acha que tem que fazer uma lei. Se lei resolvesse os problemas do Brasil já estava tudo resolvido porque nós temos leis para tudo que você puder imaginar e mais um pouco. Uma Constituição que é uma bíblia. O que nós precisamos é diminuir essa Constituição, racionalizá-la. Muito das minhas propostas vão nessa direção, de tornar a Constituição mais simples, não que eu pretenda transformar o Congresso numa Constituinte. Não é isso, mas acho que com algumas emendas você pode tornar a Constituição mais enxuta e fazer pequenas alterações que podem mudar a cara do nosso país, podem mudar o jeito do nosso país de ser. Por exemplo, criando mais responsabilidade para quem trabalha no governo. Como a gente vai fazer isso é o que eu quero falar daqui a pouco e não já.

O senhor pretende atuar ligado a uma causa como os senadores e deputados que são ligados, por exemplo, ao agronegócio ou à educação, a exemplo do ex-senador Cristovam Buarque?

OG: Eu não gosto de rótulos. Quero apoiar todas as coisas que forem boas e inteligentes para o nosso país. Tanto na educação como no agronegócio, como na defesa do meio-ambiente, que pode parecer contraditória. Eu acho que um senador tem que ser, necessariamente, um generalista, ele não pode ser um especialista. Você é instado a todo o tempo a falar de reforma da previdência, de reforma política, de reforma tributária e essas são as questões que podem mudar o Brasil. Você resumir ou reduzir a função de senador a ser despachante de um determinado segmento da sociedade é torná-la menor. Você tem que pensar nas grandes questões. E as grandes questões são como a sociedade se organiza. Achar que a forma como a sociedade está organizada é imutável e ficar dentro dessa organização batalhando pelo agronegócio ou batalhando pela frente parlamentar dos empresários das pequenas hidrelétricas ou coisa que o valha para mim não faz sentido. Não é esse o papel de um legislador. Temos que desburocratizar o país para que essa função deixe de existir, isso não faz muito sentido.

O Congresso brasileiro é considerado o segundo mais caro do mundo, perdendo apenas para o dos Estados Unidos, em número de funcionários. Aqui a média de assessores por senador seriam 11 pessoas. Quantos o senhor tem?

OG: Estou dentro da média. Na verdade, tenho 13 assessores e não pretendo passar disso porque eu tenho as pessoas necessárias para poder desempenhar bem o mandato. Porque sem uma equipe você não consegue fazer a coisa acontecer. Aí você fica sozinho, é muito bonito, mas você não dá conta do recado. Você tem que ter advogado, economista, especialista em orçamento, tem que ter pessoas que te ajudem nessas áreas específicas e eu tenho essas pessoas. Você tem que ter uma secretaria, um chefe de gabinete. Essas coisas são necessárias.

Todos bancados pelo Senado?

OG: Bancados pelo Senado. Aqui no meu escritório eu tenho uma pessoa que responde pela minha assessoria de imprensa, em Curitiba. Essa quem banca sou eu. O que eu vejo nesse número de cargos? Na verdade o gasto previsto hoje para o Senado e para a Câmara dos Deputados, o Congresso inteiro, é em torno de R$ 10 bilhões que vão ser gastos com parlamentares neste ano. Acho isso um absurdo. Acho que esse gasto pode diminuir, e muito. Mas, de novo, essa é uma questão sobre a qual quero fazer muitas gestões junto à presidência do Senado. O novo presidente, David Alcolumbre, na sua campanha pela presidência do Senado disse claramente que procuraria reduzir esses gastos, ver onde estão esses desvios. Realmente existe muita gordura, muita coisa que pode ser cortada. Por exemplo, eu fui surpreendido com o auxílio-mudança, que queriam depositar na minha conta. Eu recusei isso. Não quero. Me ofereceram auxílio-moradia. Recusei também. A única coisa que eu vou aceitar do Senado é o salário, que hoje é de R$ 32 mil (na verdade, são R$ 33,7 mil) e é isso, nada mais. Esse salário é justo. Você está trabalhando, você merece receber. Não quero mais nada. Essas pessoas que trabalham no meu gabinete são funcionários do Senado, são todas de Brasília. Não contratei pessoas novas.

Os senadores têm direito a plano de saúde…

OG: O plano de saúde é debitado no salário do senador. É mais ou menos como se você trabalhasse na Volkswagen e tivesse um plano da Unimed e fosse debitado no seu salário. Isso eu acho que não tem problema nenhum. Agora, dizem as más línguas, não sei se é verdade, que depois que um senador termina o mandato, esse plano continuaria indefinidamente.

Inclusive dando direito aos familiares do parlamentar.

OG: Eu ainda não obtive a confirmação disso porque há muito folclore também nisso, viu? O que eu posso aceitar é que, se tem um plano de saúde, cujo preço é de mercado e que vai abater do meu salário enquanto eu estiver lá, não vejo nada de errado com isso. Mas um plano que significa um privilégio que vai continuar até eu morrer, eu não aceitarei.

A revista Veja divulgou que o senhor está comprando um jatinho para se locomover entre Curitiba e Brasília. É verdade?

OG: Isso é uma coisa tão idiota, com o perdão da palavra. Tão pequena, tão mesquinha.  A Veja fez uma nota burra a esse respeito. E o pior é que fez insinuando que eu estaria comprando porque agora sou senador. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu estive olhando, posso fazer isso, como centenas de outros empresários já fizeram, com o dinheiro que eu ganhei como empresário e não como político. Aliás, eu não ganhei nenhum tostão como político até agora. O primeiro salário só sai em março, comecei dia 1º de fevereiro (risos). Se eu vier a comprar esse avião será como empresário. Fiz isso gerando 10 mil empregos como coloquei na nota [de resposta à revista], pagando centenas de milhões em impostos. Aliás, o Senado, a mim pessoalmente, só dá prejuízo porque a minha campanha saiu do meu bolso. Não peguei um centavo de ninguém. Não quero outra coisa a não ser esse salário, que se eu não receber vai parecer demagogia. Todos os demais precisam, e eu não vou ser diferente deles. Eu acho justo o salário. O resto, se eu vou comprar um avião ou um navio…

É que agora o senhor é uma pessoa pública, por isso chamou a atenção.

OG: Eu virei político agora, mas fui empresário a minha vida inteira. O que conta mais? Eu nem fiz nada como político ainda.

Eu vi a nota com outro enfoque, que pode até ser positivo. Acho que foi este o objetivo, sem entrar no mérito ou querer defender a revista.

OG: A Veja quis insinuar que o Senado estava querendo pagar o avião. Um absurdo.

Não entendi assim. Entendi que agora o senhor queria usar seu próprio avião para abrir mão das passagens aéreas a que todo senador tem direito e usar seu próprio meio de transporte.

OG: Mas isso é um luxo e uma comodidade minha que eu posso me dar porque ganhei dinheiro como empresário. Não é uma coisa que tem a ver com a política. Se em vez de senador eu fosse fazendeiro no Mato Grosso também compraria um avião.

Comprar o avião já era um desejo seu então?

OG: Era um desejo meu ter um avião. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Se eu tiver o avião é óbvio que vou usá-lo para ir a Brasília porque é muito mais cômodo. Quando eu achar que devo (risos).

O problema é que o senhor vai receber muitos pedidos de carona…

OG: Se tiver eu darei com prazer. Se forem pessoas bacanas, por que não? (Risos)

O senhor pretende exercer só este mandato, sem disputar a reeleição?

OG: É só este mandato. Não sou candidato a mais nada. Eu disse isso durante a campanha, que não disputaria reeleição.

Nem outras eleições no meio? Teremos eleições para prefeito em 2020 e para governador daqui a quatro anos? Afinal, o senhor é um nome novo na política, é uma nova liderança.

OG: A única coisa que me interessa é ser senador. Se eu puder dar uma contribuição no Senado para mudar o Brasil eu quero fazer isso. É um ideal que eu tenho. Fora isso não tenho nenhuma vontade de exercer cargo executivo, nem de participar de nenhuma outra eleição. Essa foi minha única eleição e será o único mandato que vou exercer.

Mas não registrou em cartório, né? Porque tem gente que registra e depois não cumpre.

OG: Eu não registrei, mas vou cumprir por óbvio. Eu não tenho interesse em outra coisa. Já é um sacrifício que estarei fazendo nesses oito anos. É um bom sacrifício. Vejo isso como missão, não vejo como carreira.

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3 comentários em “Do estado máximo ao estado mínimo, a trajetória de Oriovisto Guimarães na vida e na política”

  1. Parabéns, R.Bessa……O Povo estava ANSIOSO por saber das intenções do Senador Oriovisto.
    Tive Aula de cursinho com ele no Antigo Dom Bosco. Não sei como ele conseguia dar aula como se fosse uma MÚSICA, e era de ÁLGEBRA. Seu jeito calmo de falar e objetividade, nos deixava confortavelmente a vontade…..o que é raro no ramo da Matemática. Também o conheci muito jovem, como escoteiro em Apucarana, onde morei no passado. Obrigado aheeeee

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