Vinho, a história completa na coluna da Porto a Porto

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Porto a Porto

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(Foto: Divulgação)

Historicamente existem muitas especulações e teorias defendidas por autores sérios sobre as origens do vinho, mas a verdade é que de tempos em tempos, em algumas escavações arqueológicas, descobre-se uma nova relíquia de 6 ou 8 mil anos antes de Cristo (a.C). E assim prosseguimos, sem saber qual é o marco zero.

Alguns teóricos acreditam que a parreira teve origem há 150 milhões de anos enquanto outros afirmam que a data provável é 65 milhões de anos, em distantes Eras Geológicas. O que parece consenso é que a parreira vinífera teve origem nos países ao sul do Mar Negro e sudoeste da Cadeia do Cáucaso, área que corresponde atualmente a Turquia, Armênia e Geórgia – local onde, supostamente, esteve a Arca de Noé.

Em sítios arqueológicos desta área foram encontradas sementes de uvas cultivadas e, através de testes datados com carbono, descobriu-se que elas eram de 7.000 a.C.

Desta época datam os primeiros indícios de viticultura, ou seja, plantio de videiras organizado pelo homem. Acredita-se que os vinhos tenham surgido nesse período também, mas registros de prensas e outros equipamentos só aparecem em 4.000 a.C, na Armênia. Esses “equipamentos” são instalações descobertas como grandes vasos que eram enterrados no solo, chamados Kvevri.

Descobertas que datam de 1.600 a 1.100 a.C indicam que o vinho pode ter sido transportado em ânfora ou em pele de cabra. Em 900 a.C os barris são os recipientes mais mencionados para o transporte. Entre 900 e 100 a.C as ânforas de argila passam a ser usadas para armazenar e transportar vinhos na Grécia e na Roma antiga. A mais antiga ânfora que foi encontrada com uma cortiça é etrusca e data de 600 a.C.

Uma viagem na história

Muitas são as lendas e menções sobre os vinhos na história da humanidade. Uma das obras literárias mais antigas é o Gilgamesh, no qual uma parte trata sobre vinho. A Bíblia e o Talmude também fazem diversas referências à bebida.

Uma das mais antigas lendas que se tem notícia sobre “a primeira vez que se fez vinho na história”, e uma das mais aceitas, é a do rei persa semi místico Jamshid. Resumidamente, em seu reinado havia algumas jarras/ânforas, nas quais haviam sido guardadas uvas até que alguém percebeu um cheiro estranho. Pensou-se tratar de veneno e os jarros foram deixados de lado. Eis que uma donzela, que estava sofrendo por amor, resolve acabar com a própria vida e tem a ideia de beber o tal “veneno”. Diz a lenda que bebeu, ficou embriagada, gostou e acordou com seus problemas amorosos resolvidos.

Egípcios

Os egípcios foram os primeiros a retratar a vindima e a produção de vinho, mas a maioria dos autores considera aquela época remota demais para traçar alguma hipótese sobre como era ou não o vinho. A descoberta da tumba de Tutancâmon em 1922 (o jovem faraó que assumiu o trono aos 12 anos e morreu aos 19, provavelmente em 1327 a.C, durante a 18ª Dinastia Egípcia) trouxe novidades sobre a relação do vinho com esse povo, já que o jazido estava intacto.

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(Foto: Divulgação)

Foram encontrados vasos e ânforas que revelam uma pista sobre a forma como a vitivinicultura estava organizada naquela época. Vinhedos tinham nomes, por exemplo, e eles identificavam as ânforas com safra e referência ao enólogo. Também se descobriu que os vinhos eram brancos, tintos e fortificados. Hieróglifos indicavam plantações no delta do Rio Nilo e também que o vinho era usado à mesa, no culto aos deuses e nos ritos de funerais.

Os egípcios aparentemente não enterravam as jarras para mantê-las frias durante a fermentação, como faziam outros povos e era preocupação fundamental em um país quente.Provavelmente, se os vinhos se conservavam, era mais pela graduação alcoólica que pelas condições higiênicas de produção. Qual era o sabor do vinho daquela época? Não há nenhuma conclusão nesse sentido, mas sabe-se que era comum adicionar mel e até água do mar para “temperar” o vinho.

Estas descobertas devem-se, entre outras técnicas, as análises dos resíduos de ácido tartárico. A uva é a única fruta que possui quantidade significativa deste ácido, o que torna as informações dos pesquisadores muito confiáveis.

Gregos

A partir dos gregos pode-se rastrear a história do vinho, já que com eles o vinho chegou ao seu verdadeiro lar: Itália, França e Península Ibérica. Os gregos eram verdadeiros entusiastas dos vinhos, consumido à vontade nos Simpósios diziam que a 1ª taça era para o corpo, a 2ª para a mente e a 3ª para o amor. Em 300 a.C a Grécia começa a dominar a “indústria vinícola mediterrânea” disseminando-a na Itália, sul da França e Península Ibérica.

Os Gregos, que cultuavam o deus do vinho Dionísio, raramente bebiam vinho puro: também era comum adicionar água, normalmente do mar. Pesquisadores afirmam que quanto mais formal a reunião, e mais elaborada a comida, maior a quantidade de especiarias e aromatizantes acrescentada ao vinho.

Romanos

Os romanos têm papel fundamental na evolução dos vinhos, pois eles povoaram a Europa plantando parreiras (como a planta tem ciclo anual, necessita de cuidados regulares; desta forma, os romanos conseguiram fixar o homem à terra). Eles também descobriram que o vinho era exportável com ânforas, barro e cera. Além disso, perceberam que alguns pedaços de terra eram melhores que os outros – o início do conceito dos crus. Os romanos eram militares e colonizadores. O deus do vinho para eles era Baco.

A primeira menção a um premier cru romano, o vinho de melhor qualidade de um vinhedo específico, deu-se na chamada Safra “Opimiana”, em 121 a.C (Olímpio era o cônsul naquele ano). O vinhedo estava localizado em Falerno (atual região da Calábria) e a uva Amineum produzia vinhos brancos e doces. Os preferidos na era de Otávio Augusto (27 a.C a 14 d.C), o primeiro imperador romano, eram os vinhos doces e fortes, muitas vezes aquecidos no preparo, de modo semelhante ao que ocorre com o vinho Madeira atual. Normalmente era bebido em água morna ou, novamente, água do mar.

O livro de Lúcio Columella chamado “De Re Rustica, ou Sobre Assuntos do Campo”, datado de 65 d.C, traz informações sobre os mecanismos e a economia do vinho romano. Aprende-se que um bom vinhedo romano produzia praticamente a mesma quantidade de vinho por hectare que um vinhedo atual francês de primeira classe (em termos franceses, 60 hectolitros por hectare). Entre as técnicas utilizadas naquela época para a elaboração dos vinhos doces e fortes estavam a colheita tardia, o método passito (uvas desidratadas), torcer o talo do cacho e deixá-lo na videira para murchar à falta de seiva, reduzir o mosto por fervura ou ainda acrescentar mel.

Galeno

No século II, o melhor informante sobre o que aconteceu no mundo dos vinhos é Galeno. Grego de Pérgamo, na Ásia Menor, tornou-se médico pessoal e conselheiro do imperador Marco Aurélio. Sua reputação começou quando tratava os ferimentos dos gladiadores com vinho, obtendo sucesso no combate a infecções. Em 169 d.C tornou-se médico do imperador e uma das suas funções era protegê-lo dos venenos.

Idade Média

Didaticamente, a Idade Média é o período que vai do século V ao XV: inicia em 476 com a queda do Império Romano do Ocidente e termina em 1453, com a Tomada de Constantinopla, quando o “coração” do Império Bizantino ou Império Romano do Oriente foi vencido pelos turcos otomanos.

Um dos fatos marcantes desta época foi o declínio da produção vinícola em razão das invasões bárbaras e o colapso de Roma, sendo que muitos vinhedos foram queimados. O que manteve viva a cultura do vinho foi a Igreja (a partir do século X) e o fato de que ele ainda era bebido no lugar da água para evitar doenças.

Um personagem importante para o restabelecimento da cultura do vinho neste período foi o imperador Carlos Magno (que governou entre 768 e 814). Ele recebeu o crédito por organizar e estabelecer a legislação vitícola no norte da França e na Alemanha –os rios Rhône e Mosel, foram, por muito tempo, importantes rotas de comércio.O Império Carolíngio, como é chamado, foi o momento de maior esplendor do Reino Franco (ocupava a região central da Europa). Naquela época, a Europa estava toda fragmentada com o fim do Império Romano e Carlos Magno é considerado o responsável por redesenhar e unificar a região.

Historiadores chegam a se referenciar a ele como o primeiro enólogo que se tem notícia, pois criou regras que visavam a qualidade do vinho. Entre suas decisões, os vinhos deveriam ser transportados em barris de madeira e a produção dos vinhedos deveria ser pequena. Ele também mandou cultivar vinhas em locais específicos e deu nome a vinhedos como o Corton-Charlemagne, na Borgonha.

Século X

A partir do século X o vinho começa a renascer em virtude da Igreja e da monarquia. Monges Cistercienses, ordem de dissidentes que nasceu na Borgonha, acreditavam que apenas o trabalho físico exaustivo levava ao paraíso. Assim, com rigorosa disciplina e jornadas absurdas de trabalho, eles criaram o conceito de terroir e o maior mapeamento do mundo dos vinhos, o da Borgonha. Terroir é uma palavra francesa usada para designar uma série de fatores naturais e humanos que governam a cultura da vinha e a elaboração do vinho, como solo, clima, aspectos do terreno (como altitude e inclinação) e práticas de cultivo (a mão do homem) que torna cada vinhedo único. “Terroir é uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história”, disse Aubert de Villaine, co-diretor da Domaine Romanné-Conti.

Séculos XII e XIII

No século XII, precisamente em 1152, o grande marco foi o casamento de Henrique II e Eléanor da Aquitânia, o que colocou a região vinícola de Bordeaux sob o domínio inglês por 300 anos. Estabeleceram-se as rotas de vinhose o comércio entre Bordeauxe em Londresera muito intenso. Em 1350, a Grã-Bretanha absorvia cerca de metade das exportações de vinhos da cidade francesa, sendo que em 1390 esse número subiu para 80%.

Séculos XV E XVI

Esse período foi de expansão e grande lucratividade com os vinhos, apesar da qualidade duvidosa, segundo historiadores. Começam a surgir também os nomes famosos de propriedades. Esta é a época das grandes navegações, então começa-se a pensar em conservar o vinho para que seja preservado para as longas viagens de navio, através da adição do álcool e o processo de fortificação. Assim nasceram Porto, Madeira, Marsala e Jerez.

Em 1600 os vinhos mais desejados eram os doces, como os Sauternes de Bordeaux, Riesling da Alemanha e Tokaj da Hungria. Também lá por 1600 as garrafas foram popularizadas em Portugal numa tentativa de envelhecer os vinhos, inspirados pelos resultados em ânforas. Infelizmente, elas eram colocadas em pé, as rolhas secavam e o produto se deteriorava. Um fato curioso é que em aproximadamente 1650, em algum lugar de Bordeaux, a uva Sauvignon Blanc cruzou naturalmente com a uvaCabernet Franc e originou a Cabernet Sauvignon, talvez a casta mais conhecida do mundo.

Aqui vale ressaltar que, segundo Hugh Johnson, o vinho proporcionou a primeira experiência com álcool a apenas uma minoria privilegiada dos povos. Para a grande maioria a bebida foi a cerveja.“Descobriram que o vinho tinha muito mais poder e valor do que a cerveja e era bastante diferente das drogas alucinógenas. Sua história gira em torno deste valor”, escreve o autor. A apreciação pelo vinho também tem outro motivo, pois naquela época a água era insalubre e as pessoas morriam de cólera, sendo o vinho a opção segura e saudável.

Século XVII

Nestes anos aconteceu uma nova queda na produção de vinhos e o motivo dessa vez foi a água: um projeto audacioso levou água potável em abundância a Londres. Além disso, ainda nos anos 1600, a Europa que vivia “sedada” pelo álcool começou a ter outras opções de sedativos e estimulantes. O vinho encontrou novos rivais, os destilados (aqua vitae).

A maior contribuição para o universo vinífero do século XVII foram as garrafas e as rolhas, pois a partir delas era possível o processo de envelhecimento. Até então a oxidação era muito rápida e existia uma “corrida” para comercializar o vinho pronto o quanto antes para ele não se tornar vinagre. Quando “descobriram” como fazer garrafas, mesmo que tortas e sem padrão, o vinho começou a ir às mesas.

As rolhas só vão ser mencionadas em meados do século XVI: até então o que se vê em pinturas medievais são fechamentos com panos torcidos, panos amarrados ao gargalo ou até couro com cera de vedação. A garrafa cilíndrica só seria desenvolvida na primeira metade do século XVIII. Já o surgimento do saca-rolhas continua sendo um mistério, sendo que a primeira menção a ele data de 1681.

Outro fato marcante data da segunda metade desse século: nasceu o único vinho ao qual se atribui um criador, o champanhe. Dom Pierre Pérignon era um monge beneditino que assumiu a função de tesoureiro da abadia de Hautevillers em 1668. Cem anos antes disso Paris já reconhecia os vinhos de Aÿ como de qualidade excepcional, porém, não se sabe como era aquele vinho. “Sabemos que não era espumante. Sabemos que ali se plantavam uvas tintas, entre elas a Pinot Noir. Mas o vinho era tinto, branco ou algo entre ambos”, escreve Hugh Johnson.

Para resumir a história: naquela época havia rivalidade entre as regiões de Champanhe e Borgonha, mas os produtores daquela cidade sabiam que seus tintos jamais chegariam à qualidade dos borgonheses. Então, precisavam investir em brancos. Dom Pérignon organizou uma série de regras, que foram sintetizadas depois de sua morte (em 1718), entre as quais só era permitido o uso da uva Pinot Noir para a elaboração dos vinhos, porque ela era menos propícia a refermentar.

Na verdade, Dom Pérignon passou a vida tentando fazer com que os vinhos de Champanhe não refermentassem. Os vinhos elaborados lá eram instáveis, paravam de fermentar no outono, mas voltavam na primavera; quando estavam armazenados em garrafas, pois Pérignon não gostava da influência da madeira, a segunda fermentação fazia com que as garrafas explodissem. Dizem que era uma aventura andar em uma adega de Champanhe sem capacete de ferro, tal a velocidade e quantidade de estilhaços de vidro.

Também é atribuído a Pérignon a invenção da mistura das uvas de diferentes vinhedos antes de entrarem na prensa. “Foi ele que descobriu que a mistura cuidadosa de uvas de diversos vinhedos, nas proporções certas, de acordo com seu grau de maturação e com os distintos sabores derivados de seus solos, resulta em um vinho melhor e mais consistente do que aquele resultante da prensagem de uvas em lotes isolados”, escreveu Johnson. Histórias sobre ele ser cego, o primeiro homem a usar rolhas e ter dito “estou bebendo estrelas” são fantasias (ou exageros) de um tesoureiro que ocupou o mesmo lugar que Pérignon depois que ele faleceu.

Século XVIII

O período que se inicia em 1701 foi caracterizado por mudanças na produção e comercialização dos vinhos. A partir do momento em que ele poderia ser melhor transportado, para chegar com qualidade a locais distante, começaram também as dúvidas sobre sua real procedência, pois desde aquela época já havia falsificação. A ideia de regiões demarcadas surge como tentativa para a solução deste problema.

Apesar de existir a versão de que a primeira região demarcada do mundo foi o Douro, em Portugal, pelo Marqués de Pombal, em 1756, a questão não é taxativa, já que nem o livro A História do Vinho nem o site Wines of Portugal, por exemplo, colocam a nação europeia como o primeiro país, mas sim entre os pioneiros.

O que aconteceu foi que Portugal sofreu um terrível terremoto em 1755, sendo que Lisboa foi devastada e morreram mais de 40 mil pessoas. Em uma tentativa de reerguer o país, o ministro do rei, Sebastião de Carvalho (mais tarde o Marquês de Pombal), criou uma série de companhias de comércio monopolistas, entre elas a dos Vinhos do Alto Douro, com a proposta de deter o controle do comércio, demarcar vinhedos, controlar quantidades de produção, fixar preços e limitar as melhores áreas para o cultivo das vinhas. Para a época, um visionário.

Porém, sabemos que a região de Chianti, na Itália, reclama para si a “primeira região demarcada”. A Hungria também entra na disputa alegando que a família Rákóczy criara, em 1700, uma classificação de três níveis de vinhos Tokaj, de acordo com solo e localização.

Polêmicas à parte, o século XVIII ainda marca o período de glória da região de Bordeaux, na França, que havia se tornado a mais bela cidade moderna daquele país, e o começo da fragmentação da região da Borgonha, a partir de 1789, com a Revolução Francesa, quando as terras que pertenciam a Igreja (mosteiros) e à aristocracia foram confiscadas e desapropriadas, o que resultou na verdadeira “colcha de retalhos” que é a Borgonha até os dias de hoje.

Século XIX

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(Foto: Divulgação)

Entre os fatos mais relevantes no mundo dos vinhos no século XIX estão as técnicas que revolucionaram a produção de champanhe, atribuídas a Nicole-Barbe Clicquot-Ponsardin, a Viúva Clicquot. Existem muitas lendas sobre o que aconteceu e, obviamente, muita romantização da história, mas o fato é que a ela é atribuída a invenção da remuage (“rodar” a garrafa até que o sedimento se acumule no gargalo). A história resumida é que a Viúva encontrou na Rússia um grande parceiro para os seus negócios, mas antes de despachar seus espumantes (extremamente doces, diga-se) para lá, ela retirava o sedimento (ainda de outra forma) e completava o espaço com uma mistura de vinho, açúcar e aguardente. Só que esse “espaço” era praticamente 1/3 da garrafa. Então, um empregado da empresa foi quem teve a ideia da remuage.

Quando essa técnica ficou conhecida por outros produtores, a partir de 1821, o champanhe tornou-se uma “indústria” e aos poucos conquistou o mundo. Só para se ter ideia, no fim do século XVIII comercializavam-se algo em torno de 30 mil garrafas; em 1853 chegou-se a 20 milhões de garrafas. Na época, todo champanhe era doce e ainda era perigoso andar pelas adegas subterrâneas sem capacete. Ainda não havia conhecimento sobre a quantidade de açúcar exata que deveria ser colocada no licor de expedição, nem os vinicultores sabiam que as leveduras faziam parte da fermentação. Já o primeiro champanhe brut (ou seja, seco) data de 1846 e foi “descoberto” acidentalmente.

A pasteurização foi relevada apenas em 1862. Louis Pasteur foi um brilhante cientista francês que, entre outros méritos, conscientizou o mundo sobre a importância da higiene e ajudou a criar as vacinas. Todos esses estudos foram desenvolvidos ao mesmo tempo em que ele se empenhava em comprovar que a Teoria da Geração Espontânea, que afirmava que as coisas nasciam “do nada”, estava errada. Ele acreditava que existiam microrganismos no ar, capazes de se desenvolver e multiplicar.

Esses estudos começaram quando ele foi chamado para salvar a produção de uma vinícola na França e descobriu que o problema era a presença de micróbios que estragavam a bebida. Naquela época, optou-se por ferver o vinho para a pasteurização, técnica que representou uma revolução, mas que não se emprega mais hoje. Além de ele ter descoberto os efeitos nocivos do oxigênio para o vinho, relevou o papel das leveduras na transformação do açúcar em álcool.

O grande marco negativo na história do vinho aconteceu justamente no século XIX: a filoxera. A Phylloxera vastatrix apareceu em 1863, na França, em um pequeno vinhedo próximo ao rio Rhône, mas sua existência só foi oficializada em 1866. Trata-se de um ácaro (piolho amarelo) que ataca e destrói a raiz das videiras e que dizimou aos poucos os vinhedos da Europa. A solução demorou para ser encontrada porque, entre outros fatores, os primeiros locais atingidos estavam ao Sul da França, onde os vinhos eram considerados inferiores, na época. A partir do momento em que as videiras de Bordeaux e Borgonha foram atingidas a filoxera tornou-se um problema “oficial”. Depois de um bom tempo, e de muitos testes para achar uma solução, descobriu-se que as videiras americanas eram resistentes à praga e então a técnica de enxerto começou a se propagar. Até hoje, com raras exceções, as videiras são enxertadas.

Século XX

Quando começamos a nos aproximar dos séculos XX e XXI percebemos um salto na história do vinho. A partir da evolução do conhecimento, da ciência e da tecnologia aconteceram grandes revoluções na elaboração de vinhos no mundo todo. A entrada dos chamados países do Novo Mundo (Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia, África do Sul, Chile, Argentina e Uruguai) como produtores competitivos, com avanços consideráveis na qualidade da bebida ao longo do tempo, causou diversos revezes para os vinhos europeus, até chegarmos ao cenário em que vivemos atualmente.

Entre os fatos relevantes do período estão a oficialização do método Charmat de produção dos espumantes (segunda fermentação em tanque), o que popularizou a bebida. A técnica já era conhecida desde o século XIX, mas apenas em 1907 foi patenteada por Eugène Charmat.

Em 1924, o filósofo austríaco Rudolph Steiner falou sobre os princípios da biodinâmica, que se baseia na harmonia entre todos os elementos que compõem o vinhedo, levando em consideração também as fases da lua. Em 1932 surge, na França, o INAO (Instituto Nacional de Origem e Qualidade), com a finalidade de regulamentar os produtos agrícolas franceses através das Apelações de Origem Controlada.

Foi também durante o século XX que o Estados Unidos sofreu a Lei Seca (entre 1920-1933), período no qual a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas para consumo foram banidas nacionalmente. Portanto, somente a partir de 1950 os vinhos franceses serão popularizados no EUA.

Nos anos 1940, tem início a onda de vinhos varietais nos Estados Unidos que irá se consolidar quando Robert Mondavi, em 1960, rotulou seu vinho como varietal. Robert era filho de Cesare Mondavi, que trocou a Itália pela Califórnia para plantar e vender uvas. Depois da crise de 1929, ele comprou uma vinícola no Napa e passou a produzir vinhos de garrafão. Mudando radicalmente o foco, a família adquiriu uma vinícola chamada Krug e começou a investir em qualidade. Com a morte do patriarca, os irmãos Mondavi se separaram, Robert aperfeiçoou suas técnicas e lançou a moda de escrever o nome da uva no rótulo do vinho, o famoso varietal. Em poucos anos ele estaria produzindo os exemplares mais sofisticados da Califórnia.

A partir da década de 1970 o mundo dos vinhos sofre um novo revés e um dos principais motivos foi o chamado Julgamento de Paris, que aconteceu em 1976. Resumidamente, Steve Spurrier (crítico e comerciante de vinhos) propôs uma prova às cegas entre prestigiados vinhos franceses e novatos norte-americanos. Entre os jurados, grandes nomes da enologia da França. O resultado surpreendeu e exaltou muitos vinhos do Novo Mundo, fazendo com que os consumidores descobrissem que era possível “fazer vinho bom além da França”.

Outro “momento decisivo” dessa época foi a ascensão de Robert Parker e sua Wine Advocate.Parker é um advogado e crítico de vinho norte-americano que pontua e avalia os vinhos em um sistema de 50 a 100. Ele se apaixonou pelos vinhos na década de 1970, lançou uma newsletter em 1978 e tornou-se famoso em 1983. Isso porque ele escreveu artigos exaltando a safra de 1982 de Bordeaux sendo que outros críticos da época desdenhavam dela. A safra provou-se espetacular (é considerada histórica), Parker estava certo e tornou-se um dos mais respeitados críticos de vinhos do mundo até hoje através da publicação The Wine Advocate. Parker é responsabilizado, juntamente com outros críticos, pela chamada “internacionalização do paladar”, ocorrida nos anos 1990. Houve uma padronização nos vinhos mundiais no sentido de agradar o paladar de Parker e assim garantir boa pontuação – e vendas. Na época, o crítico apreciava vinhos com “explosão de frutas”, concentrados e que refletissem abundância de tempo em carvalho. Durante muito tempo esse foi o gosto da maioria.

Porém, acompanhando o movimento cíclico da história, “o modelo do século XXI não é mais o da imitação, ou mesmo da competição; é o da criação de novos idiomas”, escreve Hugh Johnson. O vinho tem que mostrar a identidade do local onde é produzido. A diversidade em relação as cepas e as regiões é o que o torna uma bebida única e fantástica. Aos poucos, os consumidores voltam a valorizar a tipicidade de cada terroir e a personalidade de cada enólogo. Hoje, ao invés de robustez, a preferência é por elegância; ao invés de explosão de aromas e sabores, a sutileza; ao invés da uniformização, a valorização da variedade.

Referências bibliográficas:

Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson e Jancis Robinson
A História do Vinho, Hugh Johnson
WSET: Compreendendo o vinho: explicando estilo e qualidade
French Wine Scholar, Wine Scholar Guild
Vinho & guerra: Os franceses, os nazistas e a batalha pelo maior tesouro da França, de Don Kladstrup e Petie Kladstrup.

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2 comentários em “Vinho, a história completa na coluna da Porto a Porto”

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