Morre Euclides Scalco, um dos artífices da redemocratização brasileira

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Da Redação

O ex-ministro tinha Alzheimer e contraiu Covid-19 enquanto se recuperava de um AVC. (Foto: Antônio More/Gazeta do Povo)

O ex-ministro Euclides Scalco, de 88 anos, morreu nesta terça-feira (16), por complicações da Covid-19. Ele tinha Alzheimer e, já debilitado por problemas graves de saúde, sofreu um AVC no começo do mês. Em seguida, teve sintomas característicos de Covid, como febre e falta de ar. Scalco recebeu tratamento em casa até ontem (15) com oxigênio e cuidadores particulares, quando a família decidiu interná-lo em uma clínica de tratamentos paliativos, no Bigorrilho, já com o resultado positivo do exame. Euclides Scalco tomou a primeira dose da vacina e iria receber a segunda nesta semana. A esposa, Therezinha Marcolin Scalco, também testou positivo, mas está assintomática, internada na mesma clínica. Scalco deixa quatro filhos, dois homens e duas mulheres.

Natural de Vista Alegre do Prata, município do Rio Grande do Sul, Euclides Girolamo Scalco era formado em farmácia. O companheiro de partido e amigo pessoal, deputado estadual Michele Caputo (PSDB), lamentou a morte. “Eu conheci o Scalco no início dos anos 80, ainda quando eu fazia faculdade de farmácia na Universidade Estadual de Maringá e a partir daí, tive a oportunidade de aprofundar a relação, me tornando amigo pessoal dele. O Brasil e o Paraná devem muito ao Scalco, um político honrado, admirado inclusive pelso seus adversários. Ele teve uma contribuição imensa como vereador, prefeito de Francisco Beltrão, deputado federal constituinte e presidente da Itaipu no governo de Fernando Henrique Cardoso”, lembrou ele.

Euclides Scalco renunciou à diretoria-geral de Itaipu para assumir o cargo de ministro-chefe da secretaria geral da presidência da República, com status de ministro e amigo próximo de FHC. Para Caputo, um dos maiores legados deixados por Scalco está na área da saúde. “Ele teve foi um grande articulador para definir os textos constitucionais que colocaram a saúde como direito e dever do Estado. Scalco sempre tratou com muito carinho a necessidade de se fazer uma reforma sanitária no país, o que mais tarde resultou no fortalecimento do SUS. Eu desejo à família dele toda minha solidariedade e tenho certeza absoluta que Euclides Scalco deixa um legado que poucos homens conseguiram construir”, finalizou ele.

E foi por proposição do deputado estadual Michele Caputo, que Euclides Scalco recebeu o título de Cidadão Honorário do Paraná, entregue na sede da prefeitura municipal de Curitiba, em 2019. Caputo conta que precisou insistir com o amigo para que aceitasse a honraria, oferecida inúmeras vezes sem sucesso, por conta da personalidade humilde e aversão às homenagens. Durante a solenidade, Scalco disse: “Sempre busquei corresponder às necessidades da população. Sinto-me honrado de receber o título do Estado que me recebeu. Hoje sou um homem feliz”.

O governador Ratinho Junior decretou luto oficial de três dias no Estado em razão da morte do ex-ministro e ex-deputado federal Euclides Scalco.

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Vida Pública

Euclides Scalco foi um dos protagonistas da redemocratização brasileira ao lado de Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e José Richa aos quais era muito ligado. Com eles, assinou o manifesto de fundação do PSDB. Embora figura de proa da política brasileira, sempre foi discreto, preferindo as sombras dos bastidores às luzes do palco. Era muito próximo de Richa, desde a época em que militavam no MDB.

Gaúcho da pequena Vista Alegre do Prata, Euclides Girolamo Scalco construiu sua vida política no Paraná, em Francisco Beltrão, na Região Sudoeste, onde chegou a ser vereador e depois prefeito. Antes, atuou como farmacêutico-bioquímico. Mas sua química mesmo era com a política. Desde essa época era um homem de esquerda, engajado nas lutas sociais da região motivadas pela reforma agrária. Porém, ao longo da vida transitou com facilidade em todos os espectros políticos, sempre muito respeitado.

Foi deputado federal por três legislaturas, uma delas como Constituinte, em 1988. Foi chefe da Casa Civil do governo Richa (1983-1988), o primeiro governador eleito após o fim do regime militar. Ocupou também o cargo de ministro-chefe da poderosa Secretaria Geral da Presidência da República de FHC. Seu último cargo público foi a direção geral brasileira de Itaipu, no segundo mandato tucano.

Requião lamenta perda

A pedido do portal, o ex-prefeito de Curitiba, ex-governador e ex-senador Roberto Requião (MDB) deu o seguinte depoimento sobre Euclides Scalco: “Quando entrei na política partidária me inscrevi no meu primeiro partido, o velho MDB de guerra, entrei pelas mãos de Euclides Scalco. Era um quadro político social-democrata muito importante no Brasil. Posteriormente ele se afastou de mim porque rompi com aquele grupo político que fundou o PSDB, que acabou partindo para a tese da dependência como fator de desenvolvimento. Mas o Scalco era um homem sério, era um grande quadro e teve uma influência profunda na minha participação da política legal, da política partidária no Brasil. Sinto profundamente o seu falecimento e deixo aqui o meu pesar para os seus familiares. O Scalco marcou o início da minha vida política sem dúvida alguma”.

Filantropo por vocação

Euclides Scalco era presidente do Conselho Superior da Associação dos Amigos Hospital de Clínicas da UFPR. Para Pedro de Paula Filho, atual presidente da Associação, a perda de Scalco, que presidiu a entidade entre 2015 e 2017, é inestimável. “Fica uma lacuna no Brasil todo, pessoas como o Scalco são cada vez mais raras. Ele representou o Paraná em todas as esferas possíveis, como farmacêutico, empresário, em cargos públicos de todos níveis. Passou por ministérios, pela Itaipu, sempre deixando sua marca, sendo referência. Na Associação falar o nome dele abria portas, principalmente em reuniões importantes”.

Para ele, Scalco foi um dos pilares e ajudou a consolidar a instituição emprestando seu prestígio. “Tive nele sempre a inspiração de fazer o correto de forma transparente em favor dos pacientes, acompanhantes de tratamento e profissionais de saúde do “nosso HC”, sim nosso, o Scalco sempre teve o exato sentido de pertencimento do Complexo HC, sem que o pertencimento fosse em benefício próprio ou de terceiros que não fossem aqueles que dão entrada pelo SUS através do sistema de saúde”, declara. “Na verdade, nunca esperamos menos de uma pessoa extremamente solidária e com a visão muito clara de ajuda ao próximo”, conclui o presidente.

Sepultamento

O corpo de Euclides Scalco será cremado em uma cerimônia íntima com a presença apenas de familiares, entre às 16 e 17h, no Crematório Vaticano.

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