Perfil: Laurette fez de Curitiba seu próprio Haiti

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Confira na coluna de Reinaldo Bessa na revista Pinó, da Gazeta do Povo, o perfil de Laurette Bernardin Louis, que chegou do Haiti em Curitiba, expulsa pelas crônicas dificuldades de seu país.

Reinaldo Bessa

(Foto: Rodrigo Pierrot/Gazeta do Povo)

“Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui”. A famosa música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, de 1993, retratava um Haiti tupiniquim. O que os dois não imaginavam é que a letra da canção, que fala das mazelas brasileiras, tinha algo de premonitório. Quase duas décadas depois uma leva de haitianos expulsos pelas crônicas dificuldades de seu país, agravadas pelo terremoto de janeiro de 2010, aportaria no Brasil, muitos deles em Curitiba.

Não foi o caso de Laurette Bernardin Louis, de 41 anos. Ela chegou no dia 8 de março daquele mesmo ano, mas não como refugiada. Veio com visto de estudante. Sua vida, porém, está intimamente ligada à dos compatriotas que deixaram o país naquela condição. Todos os que vieram depois dela tinham seu nome anotado em algum lugar nos pertences. Logo após colocarem os pés no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, já a procuravam em busca de ajuda para se estabelecer por aqui.

Laurette era a encarregada de lhes dar as boas-vindas e ajudá-los em tudo. Também como numa outra canção de Caetano, a maioria chegava sem lenço e sem documento. E lá ia Laurette correr atrás de tudo. Experiência não lhe falta. Cursou secretariado no Haiti e trabalhou na área em órgãos do governo em Porto Príncipe.

Nascida em Vallières, no Nordeste do Haiti, ela é a sétima de oito filhos. O pai era agricultor e a mãe tinha uma mercearia na pequena cidade da ilha caribenha. Dos três irmãos dela que moram no Brasil, um também vive em Curitiba. Laurette deixou o Haiti para estudar no Brasil. Formou-se em Fisioterapia na Universidade Tuiuti, com o curso financiado pelo Fies, e em Relações Internacionais na Uninter, com bolsa integral.

Laurette com o marido, Louinel Louis, no dia de seu casamento. (Foto: Arquivo Pessoal)

Embora recém-casada, mora só com as filhas Silvanie Bernardin, de 21 anos, e Leisha Angrand, de 16, num apartamento do conjunto habitacional Moradias Belém II, da Cohab, no Boqueirão. O marido, o também haitiano Louinel Louis, é contador e mora em Boston, para onde ela pretende se mudar futuramente. Os dois se casaram no dia 1° de julho deste ano num cartório de São José dos Pinhais, com direito a uma festa para apenas 15 convidados em uma chácara. “Amo meu marido e ele também me ama. Isto para mim é a felicidade”, simplifica.

No dia em que recebeu a Pinó em sua casa, um domingo de agosto, estava tratando do envio de donativos às vítimas do novo terremoto que atingira o país dias antes. Sua cidade não foi afetada pela nova tragédia. Ela está ajudando pessoas que nunca viu na vida. Com a migração em massa após o terremoto de 2010, que fez de Curitiba uma das cidades brasileiras mais procuradas por haitianos, católica que é passou a atuar na Pastoral do Imigrante, o que a levou a criar a Associação para a Solidariedade dos Haitianos no Brasil (ASHBRA), da qual foi a primeira presidente. Hoje ocupa o cargo na condição de honorária, embora continue fazendo o mesmo papel de sempre. “Todos os pepinos sobram pra mim”, diz sorridente num português que já incorpora nossas gírias. Ela calcula que vivem em Curitiba e arredores cerca de 3 mil haitianos.

Ao chegar a Curitiba com outras sete pessoas, Laurette seguiu para um assentamento do MST para imigrantes na Lapa. Ficou menos de um ano até descobrir que a promessa de ingressar na Universidade Federal do Paraná não se concretizaria. Desligou-se do assentamento e foi à luta por conta própria. Morou um tempo no bairro Butiatuvinha, nas cercanias de Santa Felicidade, e trabalhou durante três anos na Secretaria da Saúde da vizinha Campo Magro, onde tem uma pequena comunidade de haitianos. Até conseguir entrar na faculdade de Fisioterapia, dedicou-se em tempo integral a ajudar os conterrâneos. Muitos já foram embora, a maioria para os Estados Unidos.

Sua filha Silvanie trabalha num dos supermercados Condor e a caçula é aprendiz na Fundação de Ação Social (FAS) da prefeitura de Curitiba. Quando pergunto por que escolheu Curitiba, ela responde: “Deus que sabe”, e ri. Diz gostar da cidade e não sabe apontar um motivo em particular.

(Foto: Arquivo pessoal)

Seu tempo é quase todo preenchido com o trabalho na clínica Integrare – Terapias Integradas, no Novo Mundo, onde há cinco anos atende pacientes com danos neurológicos, além de pessoas que tiveram Covid. “Ela é uma pessoa iluminada, tem o senso de ajudar os outros”, diz a diretora administrativa da clínica, Meiry Regina dos Santos Silva. Segundo ela, Laurette demonstra muita gratidão por tudo que conquistou. Quando não está trabalhando participa de várias reuniões online para resolver questões dos conterrâneos que vivem aqui. Ela também pensa em colocar em prática sua outra formação superior, de bacharel em Relações Internacionais. E para uma haitiana engajada isso não é pouca coisa.

Sua boa relação na comunidade haitiana chamou a atenção da prefeitura de Curitiba. Frequentemente é consultada para ajudar na elaboração de políticas públicas voltadas ao grupo. Ajudou a criar uma cartilha em francês e créole usada pelas unidades de saúde para melhor se comunicar com as gestantes haitianas que procuram os postos para exames pré-natal. Para o assessor-chefe de Relações Internacionais da prefeitura de Curitiba, Rodolfo Feijó, seu amigo, Laurette tem sido uma importante parceira da atual administração e seu trabalho junto à comunidade haitiana é uma inspiração para construir uma cidade mais justa e humana.

Também está envolvida com o projeto social da UFPR para haitianos e outros refugiados que queiram cursar faculdade no Brasil. Faz parte do Conselho Estadual dos Direitos dos Refugiados, Migrantes e Apátridas (CERMA) do Paraná, entre outras funções similares. Anualmente realiza o Natal Solidário do Haiti no Memorial de Curitiba e distribui presentes aos haitianos pequeninos em situação de vulnerabilidade social.

Pensa um dia voltar em definitivo ao Haiti. “É tudo que eu gostaria, mas as coisas precisam melhorar lá”, diz. A última vez foi em 2014, para rever a família. Laurette reclama que a imprensa resume seu país à capital, Porto Príncipe. “Tem pobreza, sim, mas não como colocam. Temos lugares lindos, praias atraentes”, conta. Para ela, as constantes crises políticas vividas pelo Haiti – como a mais recente, que resultou no assassinato do presidente Jovenel Moïse – são criadas pelas elites do país. Segundo Laurette, Moïse era duro com elas. E pagou com a própria vida. Enquanto as coisas por lá seguem como sempre, ela vai construindo sua vida aqui, cheia de sonhos. Laurette pensa e reza pelo Haiti. Afinal, o Haiti não é aqui também?

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