Perfil: Márcia Huçulak, a dama de ferro da Saúde de Curitiba

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Confira o perfil de Márcia Huçulak, secretária municipal de Saúde de Curitiba, na coluna de Reinaldo Bessa na revista Pinó, da Gazeta do Povo.

Reinaldo Bessa

Márcia Huçulak. (Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo)

Em um ano e cinco meses de pandemia não houve um dia sequer em que seu nome e sua imagem não estivessem onipresentes na imprensa curitibana dando explicações – e, não raro, broncas – sobre a Covid-19, a ponto de virar figurinha do WhatsApp. O dom da ubiquidade midiática fez de Márcia Cecília Huçulak uma espécie de celebridade em Curitiba, chegando a ser parada na rua ou no supermercado, mesmo de máscara e boné. Sempre vestida sobriamente e de fala baixa, a até então discreta secretária municipal da Saúde passou a dividir os holofotes com o prefeito Rafael Greca desde que começamos a dar bom dia, boa tarde e boa noite para a pandemia.

Até aceitar conversar com a Pinó, relutou o quanto pôde. O encontro só saiu depois que a cidade voltou a respirar mais aliviada com o retorno da bandeira amarela. Duplamente vacinada com a Coronavac, ela me recebeu em seu gabinete, no 9º andar do edifício Laucas, no Centro, por quase duas horas, durante as quais olhou poucas vezes para a tela do celular de capa rosa.

Uma das primeiras perguntas foi se pegou Covid. “Não peguei nem quero pegar. Não saio pra nada. Fui almoçar fora uma vez e às vezes passo rapidinho no mercado”, começa a contar sobre sua rotina fora do trabalho. Mas teve um irmão e a cunhada infectados. Tem consciência da repercussão de seus atos como secretária. “Sei que afetamos o comércio, as vendas, mas tínhamos que tomar decisões a favor da vida, eu e o prefeito”, diz, acrescentando que ambos receberam ameaças por causa das duras medidas que deixaram empresários e comerciantes fulos da vida. “Têm os que me amam e os que me odeiam. Mais que me amam”, diz com um sorriso encabulado antes de relatar casos de pessoas que a abordam nas ruas para parabenizá-la. Diz ainda que já recebeu ameaças pelas redes sociais, todas atribuídas por ela a “bolsominions”, como são conhecidos os defensores ferrenhos do presidente da República.

Aliás, chama a atenção em sua mesa um boneco do Zé Gotinha (símbolo de vacina) montando um jacaré, presente de um admirador. Garante não guardar mágoas das críticas que sofreu. “Entendo as críticas. Quem estava com problemas personificava em mim e no prefeito as críticas. Todas as vezes que fiz restrições não foi porque eu quis”, afirma. Também não vê como inimigo quem desobedece aos decretos municipais ou se expõe a riscos de contaminação. “A dificuldade que temos para convencer as pessoas a se cuidar com a pandemia é a mesma que a gente tem para convencer um diabético a não comer doces”, exemplifica.

Seus almoços, invariavelmente, são no vizinho Mercado Municipal. Um dos restaurantes que gosta de frequentar é o Box do Eliseu, que serve um dos melhores “peefes” da cidade. A pandemia interrompeu um de seus hobbies: viajar. Adora ler romances e ficção, mas diz que este ano não abriu nenhum livro do gênero por falta de tempo. “Só li sobre Covid. Estou afiada em Covid”, conta aos risos. Quando está em casa, curte os dois cachorros, um São Bernardo e um Lhasa Apso.

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Catarinense de Tanguá, nascida em 22 de novembro, dia de Santa Cecília, a primogênita de quatro filhos veio com a família para Curitiba com quatro anos. Desde então, os Huçulak moram no Pinheirinho, populoso bairro da Região Sul da capital. Seus pais, Dilza e Vladimiro Huçulak, ambos de 83 anos, são seus vizinhos, assim como todo o restante da grande família. Formam uma comunidade com tradições italianas (por parte de mãe) e ucranianas (por parte de pai), onde não faltavam animados churrascos nos fins de semana até a pandemia. Com o vírus à solta, proibiu os parentes de se aproximarem deles. “Eles ficaram bem guardadinhos, sem sair pra nada”, diz. E tem uma forte razão para a decisão de isolar os pais. Segundo ela, 50% da transmissão do novo coronavírus é intrafamiliar. O pai tem uma madeireira em Fazenda Rio Grande, tocada pelo irmão, Marcelo.

Casada com o analista de sistemas Jurandir Camargo, tem um filho do primeiro casamento, Bernardo, de 20 anos, estudante de Medicina na Faculdade Evangélica Mackenzie de Curitiba. Márcia formou-se em Enfermagem pela PUCPR em 1983 e tem mestrado em Planejamento e Financiamento em Saúde em Londres, onde morou durante um ano. A escolha da profissão foi influenciada por uma freira enfermeira do colégio onde cursou o segundo grau. Fez o ensino fundamental no Colégio Madre Clélia, no Capão Raso, e o segundo grau na Escola Técnica de Enfermagem Catarina Labouré.

Márcia Huçulak está à frente da Secretaria de Saúde de Curitiba. (Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo)

Sua carreira como servidora da prefeitura de Curitiba começou em 1986, quando foi aprovada em concurso público. Trabalhou com a médica curitibana Mariângela Galvão Simão, atual diretora da Organização Mundial da Saúde em Genebra, na época diretora de Assistência à Saúde do município. Desse período, quando chefiava a Unidade Básica de Saúde do Conjunto Residencial Atenas Augusta, guarda muitas lembranças, como as incontáveis viagens que fez em seu Fiat Oggi levando mães com seus bebês à beira da morte para hospitais. “Salvamos muitas vidas e infelizmente outras não”, diz. O mestrado na Inglaterra, em 1993, foi a conselho de Mariângela. Coincidentemente, sua licença foi dada pelo então prefeito Greca, a quem pouco conhecia.

Desde que voltou da terra de Margareth Thatcher, exerceu diversos cargos na área da saúde, tanto no governo do estado quanto na prefeitura de Curitiba. Trabalhou em diferentes governos nas duas esferas, mas sempre mantendo distância da política partidária. Foi a responsável pela elaboração do plano de saúde das campanhas de Jaime Lerner ao Palácio Iguaçu e de Rafael Greca à prefeitura nas duas últimas eleições dele. Em 1993, na primeira das três gestões de Greca, montou a primeira Central de Regulação de Leitos da capital. Na época, Márcia era apenas uma técnica da área da saúde, sem vestígios da visibilidade que conquistaria alguns anos depois como secretária.

Em 2006, mudou-se para Brasília para trabalhar no Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), órgão de representação dos estados, como assessora técnica. Nos quatro anos em que morou lá aprendeu tudo e mais um pouco da intrincada área da saúde pública do país. Circulou muito pelos corredores e salas do Ministério da Saúde e pelos gabinetes do Congresso Nacional. Falava com todo mundo, de todos os partidos, em busca de recursos para estados e municípios.

Foi durante sua passagem por lá que conheceu e se tornou próxima de Luiz Henrique Mandetta, o primeiro ministro da Saúde de Bolsonaro. Na época, ele era um desconhecido deputado federal pelo Mato Grosso do Sul. Desse período restaram uma amizade e uma admiração sólidas, que lhe valeram a alcunha informal de “Mandettinha” entre comerciantes curitibanos por seguir a cartilha do ex-ministro como condutora da pandemia em Curitiba. E é só elogios ao colega. “Com ele, tínhamos uma diretriz. Hoje não espero nada do Ministério, infelizmente. Pena que veio a pandemia porque senão ele ia fazer um strike”, acrescenta.

Sobre a admiração pelo ex-ministro, conhecido por sua defesa intransigente da ciência para enfrentar a pandemia, o que lhe custou o cargo, Márcia diz que aprendeu a trabalhar com evidência científica. “Sempre segui a cartilha da ciência, estudei tudo que os países faziam”, conta enquanto diz que a pandemia nos jogou num mar revolto sem luz, sem sabermos se íamos encontrar um rochedo pela frente. Afirma ter sido das primeiras a insistir no uso da máscara e quem convenceu o prefeito da necessidade de tornar seu uso obrigatório. Aliás, Greca a chama de Cossaca pela firmeza demonstrada no cargo.

Católica fervorosa, tem uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, semelhante à encontrada no rio por pescadores, em uma prateleira de sua sala. “Ela ajuda a iluminar minhas decisões”, diz. Márcia virou secretária quando o então titular do cargo, o geriatra João Carlos Baracho, pediu demissão. Estava aposentada desde 2018 e viu no convite um desafio, já que não se considera uma mulher de se aposentar.

E apesar dos convites para disputar eleições, garante que não foi contaminada pelo vírus da política e que não almeja cargos eletivos. “Gosto do que eu faço e faço com amor”, diz a dama de ferro da saúde curitibana pouco antes de me acompanhar até o elevador. Saí com a impressão de que ela é apenas a Márcia Huçulak do Pinheirinho, que adora um churrasco com maionese e linguicinha nos almoços de fim de semana.

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1 comentário em “Perfil: Márcia Huçulak, a dama de ferro da Saúde de Curitiba”

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