Perfil: Matheus Laiola, o delegado que não dá trégua a quem maltrata animais

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O delegado Matheus Laiola ganhou notoriedade desde que assumiu a delegacia do Meio Ambiente de Curitiba e fez da defesa de animais vítimas de maus tratos uma de suas prioridades. Hoje ele tem quase meio milhão de seguidores nas redes sociais. Confira sua história na coluna de Reinaldo Bessa na revista Pinó de maio.

Reinaldo Bessa

Matheus Araújo Laiola: delegado atua na defesa de animais vítimas de maus tratos. (Foto: Divulgação)

Matheus Araújo Laiola começou a carreira caçando o famoso ET de Varginha. Foi sua estreia como delegado concursado da Polícia Civil de Minas Gerais, aos 24 anos de idade. Depois de dois anos na cidade mineira conhecida em todo o Brasil por ter hospedado um extra-terrestre que ninguém nunca viu, ele se transferiu para o Paraná e assumiu a delegacia de Toledo, onde fez “clínica geral”, cuidando de tudo um pouco. Depois passou por Realeza, Castro e Foz do Iguaçu até chegar a Curitiba.

Natural da pequena Cândido Mota, no interior paulista, o atual titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente do estado é tão ou mais famoso quanto o ET que nunca deu as caras. Aos 39 anos, ele marca presença diariamente nas redes sociais dando voz de prisão a pessoas que maltratam animais, especialmente cachorros. Seu perfil no Instagram tem mais de 450 mil seguidores. Seus vídeos saltando muros ou arrebentando cadeados e correntes para salvar os bichos viralizam imediatamente. Matheus Laiola é o cara. Com ele, os cachorros vítimas de maus tratos ganharam um defensor ferrenho, que não mede esforços para tirá-los das garras de quem não os trata com a dignidade que merecem e que a lei exige. E ele a cumpre à risca, ainda que isso lhe custe umas mordidas de desespero.

Mas sua vida de policial nem sempre foi feita de salvar animais. Seu currículo inclui passagens pelas delegacias do Adolescente de Foz do Iguaçu, de Furtos e Roubos e de Desvio de Cargas, essas em Curitiba, e também pelo COPE, o Comando de Operações Policiais Especiais da Polícia Civil, onde chefiou uma mega operação contra a temida facção PCC (Primeiro Comando da Capital).

Segundo ele, foi a maior quantidade de mandados de prisão já expedidos numa única operação – mais de 700. Em sua segunda passagem pela Furtos e Roubos, desta vez como titular, vivia sobrecarregado com o grande volume de Boletins de Ocorrência de toda ordem que caíam sobre seus ombros e de sua equipe. Eram quatro mil por mês. Até que um dia começou a pesquisar outras delegacias mais tranquilas e se deparou com a calmíssima Meio Ambiente, com míseros 12 BOs por mês. Não pensou duas vezes ao pedir sua transferência.

Era 2019. Até então, sua relação com cachorros não passava da que ele tinha com o cão da família quando adolescente. Uma vez instalado na nova repartição, entrou em contato com a Rede de Proteção Animal da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Curitiba para se inteirar da missão que lhe aguardava. Mas as atribuições da nova delegacia não se limitavam a livrar cachorros e outros bichos de cativeiros inóspitos. Ele passaria a cuidar de tudo que dissesse respeito à área ambiental, como desmatamentos clandestinos e poluição. Porém, a repressão aos tutores de animais relapsos começou a repercutir de tal maneira que acabou se sobressaindo em sua rotina, a ponto de torná- -lo quase uma celebridade no meio cachorreiro. “A imprensa gostou e começou a noticiar”, diz ele.

Uma de suas primeiras ações na nova delegacia não envolvia exatamente um cachorro em apuros. Ele foi chamado para apreender uma cobra píton de seis metros, cujo tutor não tinha a documentação do animal. O rapaz enrolou a cobra de estimação na perna e se reusava a entregá-la, alegando que não conseguiria viver sem ela, enquanto beijava a cabeça do bicho, que acabou indo embora com a equipe de apoio. Também desmantelou uma quadrilha que usava um pet shop de São José dos Pinhais como fachada e que se dizia referência em cuidados animais.

Mas o trabalho de maior repercussão, que o tornou conhecido em todo o país, se deu em Mairiporã, no estado de São Paulo, onde havia uma rinha de pitbulls com a participação de cães e apostadores de todo o Brasil e até de outros países. Ele foi até lá levado por uma denúncia de que dois abonados apostadores de Curitiba estavam entre os proprietários dos cães briguentos. Matheus e sua equipe foram até a cidade, acabaram com a farra e resgataram os pitbulls que sobraram vivos. Os que não sobreviviam eram – pasmem – assados e comidos pelos próprios apostadores. Até hoje as cenas que ele e sua equipe viram no local não lhe saem da cabeça. Mundo cão às avessas.

Foi nessa ocasião que ele teve contato com gente como a apresentadora e ativista Luísa Mell, capaz de pular dentro de um vulcão em erupção para salvar um cãozinho, e Alessandro Desco, especialista em resgate de pitbulls, além do deputado por São Paulo Bruno Lima, seu colega de Polícia Civil. Ficou amigo dos três, todos igualmente seguidos por multidões nas redes sociais. O MMA canino de Mairiporã, com direito a juiz americano, teve ampla repercussão, inclusive fora do Brasil. “Foi o que nos colocou em evidência nacional”, conta Matheus Laiola, a ponto de lhe valer convites para dar palestras em todo o Brasil e para participar da cerimônia de sanção da alteração na lei contra maus tratos a animais (Lei 9605/98), no Palácio do Planalto, pelo presidente Jair Bolsonaro, em junho de 2020.

“Hoje trabalho mil vezes mais que na Furtos e Roubos, mas não consigo me ver trabalhando com outra coisa, virou um vício”

Com a simpatia que suas ações despertam, as denúncias de maus tratos dispararam na central 181 da delegacia, fazendo com que o número de BOs crescesse em progressão geométrica. Se era tranquilidade o que ele buscava, o tiro acabou saindo pela culatra. Mas ele diz adorar o que faz e sua inspiração é o Spitz Alemão Thor, de quatro anos. Divorciado, Matheus tem o cãozinho como única companhia no apartamento em que mora no Bacacheri. “Hoje trabalho mil vezes mais que na Furtos e Roubos, mas não consigo me ver trabalhando com outra coisa, virou um vício”, conta. No começo, era zoado por colegas em grupos de WhattsApp, que o chamavam de “delegado do cachorrinho”. Diziam que seu trabalho era perfumaria e que ele deveria focar em crimes de homicídio e tráfico de drogas. Deu de ombros e seguiu em frente.

Hoje ganhou o respeito de todos. Ele atribui o aumento das denúncias de maus tratos à maior conscientização da população. Uma das formas mais comuns de maus tratos, segundo o delegado, é o abandono dos cães, problema que cresceu 50% com a pandemia. Sem renda, muitos tutores jogaram seus melhores amigos à própria sorte nas ruas e estradas rurais. Ver o sofrimento dos cães que resgata diariamente lhe custou crises de pânico que ele trata com remédios e terapia. “Aprendi a ver o copo com a metade cheia”, diz sobre o conselho que ouviu de um psiquiatra que o ensinou a encarar seu trabalho com otimismo pelo número de animais salvos e não os que se perderam pelo caminho. Matheus diz que buscou ajuda quando começou a ter dificuldades para dormir e evitar pesadelos que o faziam acordar assustado. Muitas vezes chorando.

Em muitas de suas incursões em busca de animais vivendo em condições degradantes, ele se depara com protetoras que abrigam dezenas de cães sem condições para tal. Relata o caso de uma mulher que só se alimentava de pipoca para dar de comer aos filhos adotivos de quatro patas. “Se a gente vai no embalo a gente comete um monte de injustiça. Não dá pra sair colocando a cabeça das pessoas numa bandeja para satisfazer as redes sociais”, admite. Sua relação com as protetoras, que já foi tensa, hoje é de parceria. Tanto que aceitou participar da versão pet do Clube da Alice, recentemente lançada, para ajudar a turma que late de solidão nos abrigos. Em nome da causa, os dois lados estenderam a bandeira branca. Seu trabalho tem o respaldo do Poder Judiciário e do Ministério Público e ele afirma que nenhuma das operações que comandou foi alvo de contestação.

O delegado reconhece o papel das protetoras porque o Poder Público, diz, não dá conta de cuidar de tantos animais. Mas nem sempre ele sai em busca de cães maltratados. Entre os crimes ambientais mais comuns está o tráfico de animais silvestres, o terceiro mais rentável do país. “Em vez de comprar um animal legalizado o brasileiro prefere pagar 10% do valor”, aponta. Com tanta exposição nas redes sociais e na mídia tradicional, ele atraiu a atenção de um inseto conhecido por mosca azul e não descarta disputar um cargo eletivo futuramente. Credenciais para exercer um mandato não lhe faltam. Além da formação em Direito, ele tem quatro pós-graduações: em Investigação criminal; Psicologia forense; Direito Constitucional e Gestão Pública, fora uma que não tem nada a ver com sua profissão. Matheus Laiola é sommelier de vinhos e chegou a dar cursos e fazer degustações. Hoje é só apreciador de um bom tinto. Com a vida totalmente dedicada ao trabalho e a salvar cachorros em apuros, Matheus Laiola virou o melhor amigo do melhor amigo do homem. Quando ele chega os cães ladram de alegria.

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